Impactos comerciais da ordem executiva de Trump que suspende a aplicação da FCPA
Em 10 de fevereiro, o presidente Trump emitiu uma ordem executiva, suspendendo a aplicação da Lei sobre Práticas Corruptas no Exterior para promover a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos, sinalizando uma mudança nas prioridades de aplicação da lei dos EUA em relação ao suborno estrangeiro. A diretiva suspende temporariamente as investigações ou ações de aplicação da lei relacionadas à Lei sobre Práticas Corruptas no Exterior (FCPA) por um período de 180 dias e ordena uma revisão das investigações em andamento relacionadas à FCPA.
Disposições principais do decreto executivo
A ordem executiva determina várias ações importantes por parte da procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, incluindo:
- Suspensão de novas investigações e ações de fiscalização relacionadas à FCPA: Nos próximos 180 dias, o Procurador-Geral deve abster-se de iniciar novas investigações ou ações relacionadas com a FCPA.
- Revisão dos casos FCPA existentes: O Procurador-Geral deve realizar uma revisão detalhada de todas as investigações e ações de fiscalização em andamento relacionadas à FCPA. Essa revisão determinará o curso de ação apropriado para garantir que a fiscalização da FCPA permaneça entre as prioridades do governo.
- Emissão de diretrizes ou políticas atualizadas: O Procurador-Geral tem a tarefa de emitir diretrizes ou políticas revisadas relativas à aplicação da FCPA durante este período de revisão.
- Aprovação para casos em andamento: Quaisquer investigações ou ações de fiscalização relacionadas à FCPA que continuem ou sejam iniciadas após a emissão das novas diretrizes ou políticas exigirão autorização específica do Procurador-Geral.
- Potencial prorrogação: O período de revisão pode ser prorrogado por mais 180 dias, a critério do Procurador-Geral.
A Ordem Executiva também segue um memorando emitido por Bondi em 5 de fevereiro de 2025, que afirmava que o DOJ daria prioridade a casos relacionados a organizações criminosas transnacionais e cartéis. Isso significa necessariamente um foco muito mais restrito para a aplicação da FCPA, que havia sido priorizada de forma mais ampla nos governos anteriores. Especificamente, o Memorando sobre a Eliminação Total de Cartéis e Organizações Criminosas Transnacionais afirma que a unidade da FCPA deve priorizar investigações envolvendo suborno estrangeiro que facilite as operações de cartéis e organizações criminosas transnacionais, afastando-se de casos sem tais conexões.
O que isso significa para as empresas?
Para as empresas, esta Ordem Executiva tem várias implicações. Tendo em conta que estes desenvolvimentos ainda estão em curso, eis como prevemos que a situação venha a afetar os clientes empresariais:
- Uma grande mudança na fiscalização corporativa do DOJ: A pausa na fiscalização da FCPA sinaliza uma diminuição significativa nas atividades de fiscalização corporativa do Departamento de Justiça, incluindo investigações da FCPA. Embora isso possa levar a uma redução no número de casos da FCPA no curto prazo, é importante observar que as prioridades de fiscalização continuam em fluxo.
- As recomendações de conformidade anticorrupção permanecem inalteradas por enquanto: as empresas devem continuar a manter políticas anticorrupção e controlos internos robustos para mitigar o risco de não conformidade com as leis anticorrupção.
- A FCPA é uma lei penal que continua em vigor: a FCPA continua a ser a lei do país e as violações são crimes federais. As prioridades de aplicação da lei podem mudar, mas as empresas não devem presumir que os riscos associados às violações da FCPA tenham desaparecido. O prazo de prescrição da FCPA é de cinco anos, com a possibilidade de prorrogação em casos transfronteiriços por meio de tratados de assistência jurídica mútua, o que significa que os futuros governos ainda poderão processar casos relacionados à FCPA por ações realizadas durante esse período.
- O papel da SEC e da CFTC na aplicação da FCPA: Embora o DOJ possa abrandar a aplicação da FCPA, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) mantém jurisdição sobre os casos da FCPA para empresas públicas. Como agência independente, a SEC ainda não indicou quaisquer planos para flexibilizar a sua abordagem à aplicação da FCPA. Além disso, a SEC pode investigar casos de suborno sem depender exclusivamente do quadro da FCPA, o que complica ainda mais o panorama da aplicação da lei para as empresas. Adicionalmente, a Comissão de Negociação de Futuros de Mercadorias dos EUA (CFTC) tem, nos últimos anos, defendido que pode instaurar ações de aplicação da lei em casos que envolvam práticas de corrupção estrangeiras ao abrigo das disposições da Lei de Negociação de Mercadorias.
- As leis internacionais contra o suborno continuam a aplicar-se: muitos outros países têm as suas próprias leis anticorrupção, como a Lei contra o Suborno do Reino Unido. Com os Estados Unidos a reduzirem potencialmente a aplicação da FCPA, poderá haver um aumento nas ações de fiscalização internacionais para preencher a lacuna. Além disso, as empresas estão cada vez mais a adotar uma perspetiva global sobre o combate à corrupção, alargando as suas políticas para abranger não só a FCPA, mas também outras medidas anticorrupção, como subornos e suborno comercial. Como resultado, as empresas devem permanecer vigilantes nos seus esforços anticorrupção, uma vez que uma ampla gama de leis ainda pode afetar as suas operações.
- A reputação e a percepção pública são importantes: escândalos de suborno e corrupção podem prejudicar a reputação de uma empresa, mesmo que esses incidentes ocorram fora do âmbito das violações da FCPA. As empresas devem ter cuidado ao flexibilizar as suas medidas de conformidade anticorrupção, pois a crescente sensibilidade do público em relação a questões relacionadas à corrupção pode levar a publicidade negativa, independentemente da jurisdição ou do quadro jurídico envolvido.
Olhando para o futuro
O panorama da aplicação das leis anticorrupção nos Estados Unidos está a evoluir rapidamente. Embora a pausa na aplicação da FCPA possa oferecer um alívio temporário para as empresas, as implicações completas dessas mudanças ainda estão por ser vistas. É crucial que as empresas se mantenham informadas à medida que a situação se desenvolve e continuem a manter medidas de conformidade anticorrupção e controlos internos que implementem as melhores práticas anticorrupção.
Se a sua empresa está a passar por essas mudanças ou tem preocupações sobre as suas práticas de conformidade, consultar alguém com experiência em leis anticorrupção pode fornecer orientações valiosas. Fique atento a mais atualizações sobre essa mudança significativa na política de fiscalização dos EUA.
Para mais informações, entre em contacto com a nossa equipa.